sexta-feira, 21 de novembro de 2008

III Congresso de comunicação comunitária propõe comunidade acadêmica a refletir sobre a mídia e parâmetros estabelecidos.

As relações entre as classes sociais, sobretudo no âmbito da imagem construída pela mídia e as formas de comunicação alternativa, foram alguns dos principais aspectos discutidos no III Encontro de Comunicação Comunitária, que teve por tema, este ano, as teorias e práticas contra-hegemônicas da comunicação e da cultura.
Organizado pelo Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC) da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO), O evento teve início no dia 7 de novembro, quando reuniu em mesa redonda, no auditório Anísio Teixeira, Muniz Sodré (ECO/UFRJ); Adriana Facina (Observatório da Indústria Cultural – UFF); Cláudio Baltar (Intrépida Trupe); e Jailson de Souza (Observatório de Favelas).
Salão lotado e ouvidos atentos foi o momento em que trouxe, de dentro da favela, o criador da ONG Observatório das favelas, Jailson de Souza, reflexões, nem sempre agradáveis, aos que acham estarem ajudando comunidades carentes com projetos de extensão . “É muito complicado achar que fazer trabalhos nas favelas é uma forma de ajudar, quando na verdade o que acontece é partilhar”, argumentou Jaílson.
Outros aspectos como os mitos da classe média em relação às favelas também provocou olhares reflexivos. O fato de o tráfico ser usado como desculpa para todos os investimentos é uma das armas políticas sobre a “inocência” da classe média, que segundo Jailson, não tem conhecimento de que apenas uma minoria da população nas favelas estar envolvida no tráfico. “A imagem vendida que as favelas sobrevivem do tráfico é uma cômoda imagem proliferada pela mídia que injustiça a maioria trabalhadora”
Ainda trazendo a divisão de realidades da sociedade carioca, Jailson pautou-se em dois aspectos para mostrar a divisão da cidade. Um foi o fato de a zona oeste ser considerada fora da cidade e outro foi a divisão das opiniões na recente eleição à prefeitura, que mostrou a disparidade de pensamentos. Para ele, é preciso ter uma visão integral da cidade através do contato entre as diferenças. “Só o encontro das diferenças vai construir uma cidade uma”.
O professor Muniz Sodré apresentou um discurso complementar ao de Jailson, mas se ateve ao papel da mídia na construção da realidade. Sodré chamou atenção para o fato de a mídia não ter interesse em construir a cidadania e colocou a comunicação comunitária como a única coisa nova. A importância da vida em comunidade também foi colocada pelo professor como um dos aspectos destruídos pela mídia, que prolifera a falsa idéia de sociedade, quando a vida se dá em comunidade, sendo a sociedade uma utopia. “O que nos determina como sujeito é a vida em comunidade, que é um lugar de tensões e sem tensões não há transformações nem trabalho”.
Concluindo seu pensamento, Sodré alertou os presentes à necessidade de reinterpretar a mídia estando atento, principalmente, para o principal papel dela hoje que é a aceleração do consumo, o que distorce o conceito original de cidadania para uma cidadania com consumo.
No sábado, 8 de novembro, ainda ocorreram oficinas de rádio livre, cinema radical e jornal popular. Na parte da manhã, as oficinas ocorreram na ECO e depois continuaram no Alemão em parceria com o Grupo sócio cultural Raízes em Movimento.
O evento foi uma oportunidade de refletir sobre parâmetros que regem a vida contemporânea, abrindo espaço pra uma reformulação de conceitos, reforçando o papel da universidade como um espaço para a mudança reflexiva.




Vivianne Inojosa

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